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Diário do Comércio - Samir Keedi, economista e professor
Publicada em 21/08/2009 09:40:04
  

Sobre rodovias e ferrovias

É de conhecimento geral que há tempos o País vem travando uma luta desnecessária, tendo de um lado a questão da rodovia e, de outro, a ferrovia. A perda com isso é de ambos os lados, e, em especial, da sociedade brasileira.

A ferrovia no Brasil teve início em 1854 e prosperou até o final da década de 40 do século 20, quando atingiu o seu ápice em tamanho, com 36.000 quilômetros. A partir daí, decresceu, tendo hoje apenas 29.000 quilômetros.

Podemos conjeturar que sua decadência deveu-se à chegada da indústria automobilística, na década de 50 do século passado. Mas não pretendemos colocar a indústria automobilística como responsável pela decadência da ferrovia. Obviamente, essa maravilhosa indústria merece todos os nossos elogios. Até porque, se tivéssemos de escolher apenas um modo de transporte entre todos, seria o veículo rodoviário, sem qualquer dúvida. E pela simples razão de que ele é o único veículo capaz de fazer transporte ponto a ponto, permitindo a distribuição de mercadorias e levando-as à população em quase todos os lugares.

É fácil imaginar o que teria ocorrido com a economia brasileira, e sua chance de crescimento, o que ainda pode acontecer se déssemos mais atenção à ferrovia. E se a utilizássemos nas longas distâncias. Essa mudança na matriz de transporte, com transferência de cargas do modo rodoviário para o ferroviário, significaria, de imediato, uma redução nos custos de transporte, implicando em mercadorias a preços menores nas prateleiras do varejo e mais consumo, pois é isso que ocorre com toda renda extra.

Assim, não há como se discutir a importância da ferrovia e o que ela pode representar ao País.

Portanto, devemos lamentar que o Estado tenha relegado a ferrovia a essa situação, imaginando-a descartável. Mas nem tudo está perdido, já que o Estado foi obrigado a privatizar as suas operações. Hoje a ferrovia está renascendo, tendo passado de 18% a 26% da carga.

É bom que tanto defensores da rodovia quanto da ferrovia se conscientizem da importância da distribuição de mercadorias, em um país como o nosso, e, em especial, do quanto vale o povo brasileiro - que é a razão de ser de qualquer ação econômica nacional.

Assim, uma união entre as duas modalidades apenas traria melhorias e crescimento para ambas. Se houver uma conscientização, e essa levar a uma divisão coerente da carga, com cada um fazendo aquilo que é melhor, ambos ganharão. Não é necessário que, para que um lado ganhe, o outro tenha de perder, e isso é hoje um pensamento mais comum. Utilizar as competências adequadas de cada modo de transporte significa apenas dividir a carga de modo a que ambos, e mais a sociedade, possam tirar disso o melhor proveito.

A lógica manda que caiba à ferrovia a carga que será transportada para grandes distâncias, com isso reduzindo seus custos finais. A rodovia, por sua vez, deve ficar com a carga a ser transportada entre distâncias menores, num limite julgado ótimo, com um máximo de 400/500 quilômetros.

E vide que essas distâncias, além de boas para o custo final de transporte e, por consequência, da própria mercadoria, é também ideal para o transportador rodoviário. Aplique-se a isso o mesmo raciocínio que ocorre numa corrida de táxi, em que as viagens mais curtas são mais rentáveis do ponto de vista preço/quilometragem, em face da bandeirada. Portanto,é fácil verificar que se o transportador rodoviário realizar apenas transportes de curta distância, maior será sua receita relativa, cobrindo melhor seus custos. Assim, o ideal seria a perda de cerca de 25/30 pontos percentuais, ou metade de sua carga, ficando com apenas cerca de 30% do volume a ser transportado, aquela de ligação com outros modos de distribuição.

Com o transporte ferroviário realizando a transferência de carga a grandes distâncias, e com preços mais baixos de fretes e mercadorias - cuja consequência é o aumento da atividade econômica - a economia seria alavancada e cresceria de uma forma mais sustentada.

Não é difícil perceber que os transportes rodoviário e ferroviário não são, em qualquer hipótese, antagônicos, mas complementares, e cada um precisa do outro.


 

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